Nossas raízes

Este texto é baseado num diálogo que tive com uma criança de seis anos.


Uma criança senta-se ao meu lado, sem avisar, olha curiosa  para o meu cabelo e pergunta:

– Porque tens o cabelo vermelho mais em baixo e em cima tão escuro?

-São as raízes a crescer. – respondo.

Com uma expressão de espanto, pergunta novamente:

– Crescem-te árvores na cabeça?!

Poderia de imediato responder que não, mas não o fiz. Sempre adorei o surrealismo, e este, de todo, não poderia desperdiça-lo por nada!

– Crescem, cresce a árvore que dá muito frutos que se chamam imaginação. Tu também tens uma árvore, o que dá a tua?

– A minha dá laranjas, maçãs, peras… e não me lembro de mais nada.

– E para além desses frutos todos, dá mais alguma coisa?

-Sim, dá para ver coisas.

E de repente, estava ela a falar de tantos episódios que viveu, uns que gostou, outros nem por isso.

E da mesma forma que se aproximou de mim, também saiu, tendo a conversa ficado por ali.

Passado uns dias veio ter novamente comigo, desta vez, abriu a porta da minha sala como se estivesse a pedir  para entrar, e voltamos a conversar sobre as raízes de “árvores”.

Sentou-se ao meu lado, olhou para o meu cabelo e disse a sorrir:

– As tuas raízes!

– E estão aí também as tuas raízes!

– Sabes eu tenho muitas árvores aqui dentro. A da felicidade, a da tristeza, a da raiva e aqui dentro falta uma outra árvore que não me lembro o nome…

Voltou a repetir tudo e perguntou-me:

– Sabes qual a árvore que não me lembro? Temos a da felicidade, a da tristeza,  a da raiva e…

– Hummm.. A do amor, será? – perguntei.

Ficou a olhar para mim, a pensar.

Depois  acrescentou uma frase “E há uma árvore que não gosto nada.” Perguntei-lhe qual seria mas  não me respondeu, ficou como se novamente a pensar na resposta.

Nisso, entraram na sala todas as suas colegas indignadas com uma lista de coisas que não gostaram que a criança tivesse feito nesse dia, dizendo:

– Já escrevemos no diário de turma o que não gostamos! O que ela está a fazer!

A criança levantou-se e mudou de uma expressão meiga para uma expressão séria.

Todas olharam para mim de pé, como se eu tivesse naquele momento a solução sem pestanejar. Nesse momento, olhei para ela e disse :

– Estou a ver que a tua árvore da traquinice já fez qualquer coisa!

Sorriu.

– Vá lá, chama agora tua  árvore da felicidade para resolver tudo, sim?

Todas as outras perguntaram:

-Árvore?! Que estás a falar professora?!

Desta vez não respondi nada, afirmando que tudo se iria resolver. E a criança encaminhou todas as suas amigas, satisfeita de ter em seu cargo a responsabilidade de desfazer tudo o que tinha aprontado.

Fiquei a pensar na conversa que tive, e em quantas árvores terei eu plantado em minha cabeça, quantas terei continuado a regar e quantas outras terão sido elas esquecidas.

Fiquei a imaginar qual a árvore que cresce em mim que não gosto, como cortar suas raízes. Rapidamente, neste pensar e imaginar de sensações, ficou uma única árvore aquela que às vezes fica tão triste, outras vezes tão feliz, às vezes sente-se tão magoada e outras vezes tão amada.

A árvore da minha graciosa solidão.

Sabor do tempo

Neste tempo que escapa,
nada é e deixa ser,
o tempo come, mastiga e cospe.
Vomita farturas e prova futuros.
Agrada caras e coroas,
culpa desejos difusos.
Dor de tanto querer,
conversas de noites tardias,
de palavras vazias,
correria de mais um dia.
Depois tudo volta ao mesmo,
menos o que outrora foi,
Onde estão suas mãos garridas,
o cheiro das suas rosas antigas?
o som do rádio debaixo da alfarrobeira,
nas noites e dias de poeira?
O tempo range os dentes,
e nele perco-me em vão.
Deixa-me ficar só, com o que mais anseio,
com o jardim de flores,
o canto da parede coberta de sonhos,
um poema para despertar minhas dores,
o amanhecer com cheiro a mar,
as estrelas mais brilhantes,
a moldura de um retrato,
o conforto dos teus abraços,
e descobrir que é possível saborear o tempo parado.
Porque o tempo que conheço,
não tem segundos que formam dias,
nem valor que enriqueça meus bolsos,
nem de tão pouco a lembrança  que sou mais do que todos somos.
Joana Correia

As chaves do cadeado

Vejo-os como cães vadios pela luta de um osso, a escorregarem a provocações. Como cobras enroladas num nó , ou como os tatus envolvidos em si mesmos, cobrindo seus próprios erros. Impulsivos como o movimento de tubarões sem encontrarem quaisquer respostas de um folgo. Vejo-os como gatos meigos à espera de festas, ao final do dia. Araras que gritam para si mesmas, seres humanos que procuram soluções platónicas, crocodilos que fingem desvanecerem-se em lágrimas. Vejo-os como traças encadeadas com a sua própria luz, babuínos a saltarem em suas próprias crenças e suricatas à espreita de desgostos, para se esconderem nas suas tocas. Vejo-os como preguiças limitadas pela sua sonolência, por vezes são hienas, riem-se sem qualquer vontade, outras vezes moscas dentro de um copo de água, implorando salvação. Também já os vi como escorpiões onde provam e morrem no seu próprio veneno, girafas que se julgam de cabeça erguida. Já os vi em manadas para que haja cumplicidade em cada conquista ou derrota, dos outros. Vejo-os como cavalos em corridas sem nenhum ponto de partida nem chegada. Vejo-os como onças sonsas, ursos a hibernar de olhos abertos e atingir uma visão de águias famintas, outros fingem-se de mortos como os gambás, desculpando-se de nada terem a acrescentar, sem se aperceberem que existem a cada segundo!
Tic-tac-tic-tac…
Outros são como lobos solitários, vivem a uivar para a lua. Outros são ouriços com espinhos escondidos, há aqueles que são doninhas que soltam odores de palavras amargas, vejo-os como…

Vejo-os todos a berrar, a zurrar e a rosnar e a implorar pelo mesmo, vejo-os como loucos por apego, outros por desapego, outros são loucos por coisa alguma. Todos eles no jardim, como manequins de exposição, vejo-os somente lúcidos em querer ficarem loucos, por não quererem ser simplesmente mais um, nesta loucura zoológica. Todos procuram pelo mesmo, amontoados em jaulas, cada um na sua gaiola, cada gaiola fechada pelas suas grades, cada grade agarrada por uma pata, uma asa, uma mão.

Vejo-os assim. Todos à procura do mesmo.

São só palavras. Minhas palavras.

Sem que pareça o que na realidade sou, desacredito.

Poderia ser um escaravelho, um Deus num espaço por aparecer, uma traça, ou a última refeição antes de morrer!
Estou no mesmo pesar, no mesmo lugar de tudo. Neste tão pequeno espelho, neste grande disfarce velho.
Que peripécia, posso ver cada máscara colocada, e sentar-me nesta inércia partilhada. E em cada dia, esperar pelo avançar de ninguém, por existir também, esta estranha consciência, de nada ser mais do que aparência.
No entanto, vasculho no que ainda me pertence, na esperança de encontrar algum rumo escondido, sabendo que, no final, não haverá mais que um balançar desmedido.
Assim, escrevo. Por dependência degradante, nesta farsa sufocante, aprovação asfixiante, e é neste estado eufórico de desapego tão reconfortante, que serás apenas comédia numa película hilariante!
Enquanto aqui estiver, nunca deixarei que o meu mundo fique mudo,
Nunca terei vergonha de provar a doce desacreditação de tudo.

Hoje

Hoje não vou impressionar, nem criticar,
Beberia um licor de lágrimas, terra e mar.
Hoje não tenho pena, não tenho mágoa, nem razão,
Não tenho medo, nem fujo este chão.
Hoje não tenho pele, nem vergonha, nem odeio,
não existiria o belo nem o feio.
Hoje não haveria a mais fútil crueldade,
Nem temeria o espreitar da saudade.
Hoje a minha calma dar-me-ia a mão e dar-te-ia a vida,
Ficaria no escuro com um sorriso e tocaria na ferida.
Hoje trocaria o meu controlo pelo vento
e seria o vento perdido,
Hoje tudo é movimento e mero ruído.
Hoje não haveria caras nem desapego,
Nem apego nas caras, só sossego.
Hoje morderia o meu ego,
Hoje não congelo, nem cego.
Hoje não questiono, nem espero,
não me importo, nem quero.
Hoje abraço-me, perdoo e nada exijo,
Não converso, nem procuro, não me aflijo.
Hoje não há cheiro para recordar,
nem grãos de areia para tudo alagar.
Hoje não haveria fome nem vontade de comer,

Deixaria ser, eternamente ser.
Joana Correia

Guarda o dedal na caixinha de costura!

Prendo a linha na agulha e dou pontos neste tecido, sem sentido algum. Ora veja: hoje está por cá, amanhã não saberá, e sem que ninguém tenha tempo para enfeitá-lo, nem chega a desfilar. Efémera e curta esta costura. Como este remendo, que é a minha escrita, para além de estranha, mas não me queixo. Não tenho vocação para escritora, nem tão pouco para costureira. Coso palavras egocêntricas, sem entrar em modinhas. Esta bainha feita de farrapos e retalhos, com padrões e tecidos claros, são para manchares com as tuas mãos quentes e rematares no final. Mas antes, repara no bordado desta irónica forma de estilo. “Joana, sempre o mesmo discurso pronto a vestir?!” Mas mesmo assim, tu não te cansas.  Dou-te um conselho, cose os trapos que se rasgaram, antes que se rompa a tua melhor peça, porque eu já perdi o fio à meada.

Oh madrugada tardas tanto

“Neste sol esqueci o teu nome, coisa bonita
Esqueci os teus olhos, lábios, a tua casa catita
Nesta lua esqueci o balançar das tuas coxas quentes
Esqueci o teu ventre, os teus pés, tuas mãos ardentes
O teu cabelo livre, descaído nas suas formas redondas
A tua voz, dança de oceano, de pequenas ondas
Nestas cinzas me padeço, resto demente
Faltas-me tu, que não estás presente.”

Doces Finos da minha avó

Se um dia conseguisse contar o que para mim são aqueles doces finos, ninguém diria que eu até nem apreciava.
Talvez não houvessem amendoeiras, nem flores, nem figos secos que sobrassem para contar. Contar que são o sabor do teu arjamolho, a beleza das tuas orquídeas, o cheiro a sabão do tanque, o som da tua voz.
 
 
Aquele dia era o mais importante, não por ser a aula final do curso, mas porque eu sabia que era muito mais do que isso.
 
– Achas mesmo que correu mal? – perguntou-me com um ligeiro sorriso nos lábios, enquanto se lambuzava. De água nos olhos, em frente daquela água na boca. Apenas engoli em seco, limpei as lágrimas e respondi-lhe que sim.
 
Talvez não houvesse estômago, nem frieza, nem mágoa…nem estrelas de figo, nem fios de ovos, nem conchas, nem noites de laboro que sobrassem para contar.

Era a tua vida que estava naquela sala de aula, a lembrança de ti, a minha infância espelhada.
Mas isso, mesmo se quisesse contar, ninguém saberia apreciar.

A uma rapariga

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.
Nessa estrada de vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!
Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!
Que as mãos de terra façam, com amor,
De graça do teu corpo esguia e nova,
Surgir à luz e haste de uma flor!
Florbela Espanca